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Lua, eterna lua..

Hoje é o dia dela. Tão dela que, enquanto os seridoenses esperam com ansiedade a chuva do dia de São José, nós consideramos que a chuva caindo no seu aniversário, 12 de abril, é um   sinal que o inverno ainda vai pegar.   Ou seja, até nisso ela foi marcante. Porque sendo Lua, tinha um pouco dos astros e dos mistérios da natureza. Lembro que um ano o inverno teimou em não vir. Eu ouvia a conversa dos dois, ela e papai escutando a voz do Brasil naquele radio ABC e as noticias de chuva eram aterradoras, e ela começou a chorar quando papai falou que se não chovesse até o dia de São José não teria como pagar o colégio pra gente estudar. No dia seguinte acordei logo cedo, esperando um sinal e nada de nuvens no céu. Fiquei numa tristeza só, o Jesus Menino era o mundo para mim. Infelizmente as previsões se confirmaram: a seca veio com tudo, e papai viajou para Natal para resolver alguma coisa. Ela não se deu por vencida: chamou um marchante, mandou reunir o gado e vendeu as reses ...

Gatilhos da Memória

Um som. Um cheiro. Um toque. Não importa o quê, um belo dia o gatilho dispara e você é inundado por uma avalanche de saudade, dá aquele aperto no peito e um nó na garganta que somente quem viveu um déjà-vú assim é capaz de imaginar.Não importa a ordem ou o tempo, algumas pessoas marcam nossa existência sem que saibamos o porquê. Se foi um familiar, um amigo, um evento, uma música, um amor, um vizinho, um mestre - pouco importa - alguma coisa aconteceu para marcar nossa memória. E feliz é quem consegue reviver esses momentos, recordando sem sofrer uma parte da vida que naquele tempo você nem nos seus maiores devaneios seria capaz de imaginar que viria a batizar aquilo com uma palavra: saudade!

Desapego

 Ela  anda estranha. Teima em levantar o mindinho pra se alimentar e preocupa-se com possíveis barulhinhos ao mastigar. Eu não reconheço sua lentidão, ela que sempre andou na nossa frente em todos os sentidos... não sei se sou eu chegando na vida ou ela iniciando o ritual da despedida, o fato é que em nossas viagens sua mala é cada vez mais leve. A vaidade limita-se ao protetor solar e comer bem. Viradas noturnas já não a atraem como antigamente, e eu fico perdido por não saber pra onde ela está indo, perto fisicamente mas alheia ao burburinho que lhe era tão caro tempos atrás. Nós adolescendo, ela se indo pra sua velhice de crochês e patchwork, aparentando uma certeza de ter vivido tudo que quis.               Queria muito abraçá-la e poder dizer que eu também já tenho certeza dos meus desafios, mas meu olhar me trai porque ainda trago no rosto todos os sonhos que ela um dia sonhou. Engulo o choro quando ela me abraç...

Fim de Verão

 E a casa vai ficando cada vez mais silenciosa... um a um vão partindo. Fevereiro marca o início das aulas, e um vácuo sempre se forma em meu peito. Até quando eles ficarão comigo, dividindo a varanda, os banhos de  mar, os horários mais esquisitos para uma tapioca com queijo de coalho ou uma bacia de pipoca? Nossa casa não tem regras chatas no verão: dormir, beber e comer vai no ritmo de cada um. E quando um dos filhos reclamam que meus netos engordam no veraneio, costumo responder que eles tiveram 10 meses e 20 dias para comer direito, então não são os 40 dias do ano que passam comigo que irá causar grandes estragos na forma física deles. E que forma, que fome, essas criaturinhas tem! Amo fazer os gostos, de bolo de chocolate a macarrão praticamente todos os dias! Alface? Esqueça, acho que devo ter feito umas três saladas esse veraneio! Cachorro quente, açaí, pipoca quase todo dia, ah, isso teve, sim! E pra quem não gosta de barulho, melhor nem passar aqui na porta de casa, ...