Desapego

 Ela anda estranha. Teima em levantar o mindinho pra se alimentar e preocupa-se com possíveis barulhinhos ao mastigar. Eu não reconheço sua lentidão, ela que sempre andou na nossa frente em todos os sentidos... não sei se sou eu chegando na vida ou ela iniciando o ritual da despedida, o fato é que em nossas viagens sua mala é cada vez mais leve. A vaidade limita-se ao protetor solar e comer bem. Viradas noturnas já não a atraem como antigamente, e eu fico perdido por não saber pra onde ela está indo, perto fisicamente mas alheia ao burburinho que lhe era tão caro tempos atrás. Nós adolescendo, ela se indo pra sua velhice de crochês e patchwork, aparentando uma certeza de ter vivido tudo que quis.             

Queria muito abraçá-la e poder dizer que eu também já tenho certeza dos meus desafios, mas meu olhar me trai porque ainda trago no rosto todos os sonhos que ela um dia sonhou. Engulo o choro quando ela me abraça e teima em perguntar se está tudo bem, porque sei que não posso mais usá-la como minha Wikipédia . Desconheço os detalhes, mas em algum momento aqui em casa foi decretado que não se pode preocupar vovó, e então fiquei órfão de minha fonte de informações para todos os assuntos possíveis. Tipo assim: tem que proteger a cabeça dela; não pode mais se preocupar com filhos e netos; tem que ser poupada dos problemas da nossa família; já sofreu muito, etc, etc... 

Vai ver isso começou naquele domingo que fomos remar de stand-up e alguém desapareceu da vista de todos. Ela orgulhosa por ter iniciado mais um no mar, e todos tão preocupados porque não conseguiam localizar o da vez na água. Alguma coisa quebrou ali, não sei se foi o susto ou a ficha dela caiu,  de que não podia tudo em relação aos netos, e nem sequer poderia proteger seus filhos das dores do viver. O fato é que ela ficou com o coração apertado, e voltou a ter medo de sentir medo, como tinha sido tempos atrás. 

Quando Primeiro ela conta que fazia  Mestrado. Aí a Segunda nasceu e nunca mais ela retornou sua rotina de estudos, usando como desculpa o argumento de que queria resgatar o tempo perdido. Daí foi inventando coisas e mais coisas pra fazer, sempre incluindo a gente nos seus múltiplos afazeres... Então, deduzo que  o episódio do stand-up meio que jogou um balde de água fria em seus sonhos, e a velha pergunta se colocou novamente pra ela: o que eu vou ser quando os netos crescerem? E quando  não precisarmos  mais dela, qual o sentido que ela dará aos seus dias?

Ela insiste em resolver coisas para nós como para se fazer presente. Acho que teme ser esquecida, relegada a um mero membro da família sem serventia alguma, como uma velha roupa esquecida no fundo do armário. Ora, se ela mesma diz que não teve tempo pra nada porque engravidou e teve que casar muito jovem, porque não larga logo da gente e vai viver sua adolescência tardia? Quem disse que a gente precisa dela? Ou melhor, o que está faltando para ela finalmente levantar voo e seguir em frente? Espero que ela não use a gente como desculpa, como fez com os filhos.

Acho que ela está é se escondendo da vida, como de outras vezes. Deve ser muito fácil jogar a culpa nos outros quando  na realidade o que se tem é preguiça ou medo de tomar determinadas decisões. O que ela tem a perder a não ser o tempo dela? Ao mesmo tempo eu me pergunto: o que pode ser mais importante que o tempo, para quem já se sabe no meio do tempo total de que teoricamente dispõe para viver? 

A questão central é encontrar - ou não - um sentido para a existência. Como se fosse pecado viver por viver, sem nada de obrigações, decidir o dia de acordo com o humor com que acordou, pouco se lixando se hoje é segunda-feira e se vai é tomar chopp e ficar de papo no whats. Quem determinou a exigência de um roteiro organizado com tudo o que fazer todos os dias, do acordar até ir dormir??? 

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